abril 29, 2006

Retrato em branco e preto



para D.

"O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar."(Chico + Tom Jobim > 1968)

HISTÓRICO: Abandonar o amor não é tarefa fácil mesmo. Porque se um mergulho nas suas águas costuma ser inevitável, sair delas parece praticamente impossível, tarefa quase sobre-humana. E de onde tirar forças para vencer as correntes que puxam para o fundo? Não sei a resposta. Mas sei que não dá para ficar à deriva, quando o horizonte só mostra trovoadas e tempestades. Também não é o caso de ficar lutando contra as evidências, debatendo-se em desespero. Isso só gera fadiga, que leva ao afogamento ou nos induz a aceitar a bóia furada de novas promessas. Não seria, então, o momento de encarar os fatos, reconhecer as próprias forças (que pareciam perdidas) e analisar o desafio? Aí, é nadar até a praia ou levantar a mão para o salva-vidas.

abril 25, 2006

Iracema voou



para C.

"Iracema voou

Para a América
Leva roupa de lã
E anda lépida
Vê um filme de quando em vez
Não domina o idioma inglês
Lava chão numa casa de chá."(Chico > 1998)

HISTÓRICO: Além da melodia gostosa, essa música traz o Chico brincando outra vez com as letras: Iracema é anagrama de América. Mas não é por isso que estou escrevendo: é que a minha Iracema voou para os Estados Unidos já há alguns anos. Ainda não domina o inglês, mas está bem melhor que a da canção: trabalha numa loja de grife, já está casada, tem um bebezão que é um anjo, não precisa fugir da polícia e nunca me liga a cobrar. Foi atrás do sonho que julgava ser impossível alcançar aqui. Foi ser feliz e deixou uma saudade enorme. Sinto falta da gargalhada sonora, das palavras francas, dos almoços nos shoppings, da mão estendida sempre, essas coisas que fazem a vida valer a pena.

abril 20, 2006

O meu guri



"Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri."
(Chico > 1981)

HISTÓRICO: O documentário "Falcão - Meninos do Tráfico", exibido no "Fantástico" da Rede Globo há algumas semanas, chocou meio mundo. E não foi por pouca coisa: é desanimador não ver esperança nos olhos de quem tem a vida pela frente. O que estamos fazendo - ou deixando de fazer - com as nossas crianças? Não será grande uma nação que permite que roubem a inocência e a alegria de tantos meninos e meninas que vivem nos morros e nas ruas. Apontar, repudiar, prever o futuro delas e falar do medo que provocam com seus estiletes, revólveres ou sacos de cola não muda nada. Já pensou por que eles abandonam infância e casa para ficar ao relento ou sob o fogo cruzado? E fingir que existe um universo paralelo onde todos os excluídos - crianças ou não - trafegam é ingenuidade. Mais cedo ou mais tarde, eles vão atravessar os nossos caminhos, invadir nossas casas, quebrar as janelas dos nossos carros... O que pode ser feito? Esse é o desafio de cada um de nós. Abracemos uma causa, uma ong, um serviço de voluntariado ou vamos cobrar de quem pode mudar essa triste realidade. Mas não fiquemos fazendo de conta que não é conosco.

abril 19, 2006

Trocando em miúdos



“Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas do amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças.”
(Chico + Francis Hime > 1978)


HISTÓRICO: Quando é que o amor abandona seus escolhidos? Por que é que ele faz as malas? Para onde vai todo o desejo? O que fazer com os planos que ficam? Ainda que seja difícil responder a qualquer uma dessas questões, o mais sensato para mim é aceitar o fim. Remoer o passado em busca de pistas que desvendem o mistério só costuma trazer mais dor. Acabou. Se alguma coisa poderia ser feita, a separação é a sentença de que já é tarde demais. Eu sei que existem voltas, mas elas nunca funcionaram para mim. Será mesmo que funcionam para alguém?. Chego a duvidar que o amor possa ser resgatado. Não me parece ser essa a natureza de tão nobre sentimento: amar pede cuidado em tempo integral, porque pode ser impossível colar os cacos depois. Assim, quebrado o encanto, diga adeus, deseje boa sorte e siga em frente. Sofrer ou fazer sofrer - além do que é realmente inevitável - acaba por cegar os amantes, jogando na escuridão toda a beleza do que foi vivido intensamente. E é muito ruim quando não fica nada daquilo que outrora foi tudo para nós.

abril 06, 2006

Flor da idade



"Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
(...)
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor
(...)
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor


Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa
que amava Paulo que amava Juca que amava Dora
que amava

Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito

que amava Rita que amava Dito que amava Rita
que amava

Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto
que amava a filha que amava Carlos que amava Dora
que amava toda a quadrilha."
(Chico > 1973)

HISTÓRICO: Adoro essa canção por causa da melodia alegre, da referência a Drummond e da genialidade do compositor que - ao acrescentar uma única e mesma letra aos últimos versos das três primeiras estrofes - cria muito mais que novas palavras, mas outras situações que ilustram tão bem as aventuras típicas da flor da idade.

abril 05, 2006

Renata Maria




"Dia após dia na praia
Com olhos vazados de já não a ver
Quieto como um pescador a juntar seus anzóis
(...)

Praia repleta de rastros em mil direções

Penso que todos os passos perdidos são meus."(Chico + Ivan Lins > 2005)

HISTÓRICO: Ah, a espera e seus desdobramentos... Quando as expectativas são boas, ela tem a companhia dos sonhos, dos suspiros, da felicidade tão próxima, da ansiedade que conta as horas através dos segundos. Se é o contrário e a dúvida emperra as certezas, a espera traz para perto de si a dor, a angústia, a solidão, a tristeza, a impaciência, a lentidão dos décimos de segundo que se arrastam por horas. E aí é olhar para rua, espelho e relógio, ajeitar cabelo e roupa, caminhar de lá para cá e de cá para lá tantas, inúmeras e infinitas vezes, como se cada uma dessas atitudes pudesse afastar a sensação de abandono e de perda que já pesa sobre a alma outrora leve.

abril 03, 2006

Olhos nos olhos



"E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz."
(Chico > 1976)

HISTÓRICO: Mãe Menininha do Gantois adorava ouvir Bethânia cantar "Olhos nos olhos". Certa vez, perguntou à intérprete baiana se aquela música tinha sido escrita mesmo por um homem. Diante do "sim, foi composta por Chico Buarque de Hollanda", a mãe-de-santo sentenciou: "Pois ele deve ter é um buraco no peito". Parecia-lhe impossível que um coração masculino pudesse traduzir tão bem os sentimentos de uma mulher. Essa história está no filme "Maria Bethânia - Música é perfume", do suíço Georges Gachot, e descreve uma característica que já é lugar-comum quando se fala da obra buarqueana: o entendimento da alma feminina. "Olhos nos olhos" fala de dor ("quase enlouqueci"), resignação ("mas, depois, como era de constume obedeci"), vingança ("quantos homens me amaram bem mais e melhor que você") e superação (sem você, eu passo bem demais"). E é realmente impressionante que um homem tenha escrito isso.