dezembro 27, 2006

Apesar de você


"... Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar..."

(Chico > 1970)


HISTÓRICO: Eu não poderia terminar o ano sem escrever umas palavrinhas... Sei que 2006 teve muitos percalços, frustrações comuns (a todos nós, brasileiros, que lutamos por um país mais justo e fomos soterrados por violência, corrupção e impunidade) e outras mais particulares (um amor que não vingou, o emprego que se foi, aquela viagem adiada...), que fizeram com que o balanço anual fechasse no vermelho. Mas espera aí, será que não estamos usando dois pesos e duas medidas para aferir os altos e baixos da vida? Já reparou que uma ou duas coisas ruins que acontecem acabam por anular aqueles outros três ou quatro momentos espetaculares que vivemos antes? É certo que a tristeza costuma ficar mais tempo do que devia na nossa casa, emperrando as janelas e fechando a porta, como se quisesse impedir que o sol nos inundasse de luz e calor. Mas é preciso admitir também que um instante(zinho) só de alegria é suficiente para encher a alma de esperanças e nos fazer abrir os braços e o coração para a vida que segue lá fora. Por isso, estou disposto a valorizar cada fagulha de riso e felicidade para transformá-las no combustível que vai queimar meus momentos maus. Não, isso não é um plano para fugir da tristeza. De jeito nenhum! Até porque não é tão simples assim limpar suas cinzas. Mas quero que a menor das alegrias seja capaz de me fazer enxergar que existe um mundo de descobertas e possibilidades à minha espera na próxima rua, no próximo abraço, no próximo olá, no próximo passo, no próximo beijo, na próxima hora, no próximo ano. Porque apesar dos pesares, amanhã há de ser outro dia.

PS: A todos vocês que passaram pelo "Buarqueando" para dividir comigo um minutinho do seu tempo, meu muito obrigado. Escrever é maravilhoso; ser lido, também. Mas poder compartilhar momentos e trocar idéias é infinitamente melhor. E com certeza, é uma das minhas fontes de alegria. Feliz Ano Novo, pessoal. Espero vocês aqui em 2007.

novembro 15, 2006

Mulheres de Atenas



“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas

(...)

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito, nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas...”

(Chico + Augusto Boal > 1976)

HISTÓRICO: Fui cortar o cabelo no último sábado e – enquanto esperava a minha vez – peguei uma revista que estava dando sopa por lá. Era a publicação masculina de maior circulação e prestígio no Brasil, edição 375 com aquelas 3 comissárias de bordo na capa. Lá pelo meio do exemplar, me deparei com uma lista dos 50 melhores discos da música popular brasileira. Bem... gosto é gosto, lista é lista e há que se respeitar, mas fiquei impressionado por não encontrar um trabalho do Chico ali. E sabe o que aconteceu? Comecei a pensar qual dos cds dele eu indicaria para integrar aquele elenco (desfalcado). Sabia que estava me metendo numa enrascada: já é noite de quarta-feira e continuo imprevisivelmente indeciso. Por causa daquelas canções que eu não quero deixar de fora, vários discos estão emparelhados na fila de espera para ganhar o lugar de representante buarqueano. Mas olha só o tamanho da briga que se instalou sobre minhas emoções: até o momento de publicar esse post, 9 discos seguiam empatados na primeira colocação. Escolhi “Meus caros amigos, 1976”, mas poderia ser qualquer um dos outros candidatos, que enumero aqui pelo ano de lançamento para que “a justiça seja feita” e eu não me remoa de arrependimento amanhã ou depois: 1968, 1970, 1971, 1978, 1980, 1981, 1987 e 1993. Em tempo: escolher a canção para ilustrar esse texto também não foi tarefa fácil. Mas como algumas já estão no blog, sofri menos.

outubro 19, 2006

Sonhos sonhos são



“Negras nuvens
Mordes meu ombro em plena turbulência
A aeromoça nervosa pede calma
Aliso teus seios e toco
O exaltado coração
Então despes a luva pra eu ler-te a mão
E não tem linhas tua palma

(...)

Sei que é sonho
Não porque da varanda atiro pérolas
E a legião de famintos se engalfinha
Não porque voa nosso jato
Roçando catedrais
Mas porque na verdade não me queres mais
Aliás, nunca na vida foste minha.”
(Chico > 1998)


HISTÓRICO: Não chega a ser medo, mas – levante a mão – quem não fica um pouco apreensivo ao voar, principalmente depois de incidentes como aquele envolvendo Boeing e Legacy na rota Brasília-Manaus. Às vésperas do Dia da Criança, ganhei os céus rumo a Sampa. Ia feliz, tanto pelas companhias que tinha ao meu lado quanto por aquelas que ganharia assim que estivesse em terra firme. Confesso que - na primeira meia hora - pensei várias vezes em tragédias aéreas... Mas foi só durante os 30 minutos iniciais. É que daquela altura da viagem até o pouso em Congonhas, o tempo voou. Não porque eu tenha dormido e sonhado, mas porque encontrei uma rádio com programação exclusivamente buarqueana: os blocos começavam com um texto sobre a obra do Chico, seguido por quatro canções do músico – a primeira cantada por ele mesmo e as outras por diferentes intérpretes. E com uma programação assim, lírica e melodicamente tão rica e estimada, os pesadelos se desintegraram no ar.

setembro 27, 2006

Subúrbio



"Lá não tem brisa
Não tem verde-azuis
Não tem frescura nem atrevimento
Lá não figura no mapa
No avesso da montanha, é labirinto
É contra-senha, é cara a tapa

(...)

Lá não tem moças douradas
Expostas, andam nus
Pelas quebradas teus exus
Não tem turistas
Não sai foto nas revistas
Lá tem Jesus
E está de costas..."
(Chico > 2006)

HISTÓRICO: Ano de eleição é sempre a mesma coisa. Ontem à noite, comecei a assistir ao debate na televisão entre os candidatos a governador. Por que será que essa visão que eles demonstram ter agora se perde durante os 4 anos seguintes? Observei ali distintos cavalheiros conscientes das mazelas sociais, prometendo transformações e respeito para um povo (ainda) crente. Se é assim, como explicar que as filas nos hospitais continuem infinitas e tanta gente continue sem um atendimento médico decente? Que o esgoto corra a céu aberto em muitos cantos do Brasil? Onde estão os empregos, as escolas, as creches, a moradia, o transporte urbano digno e eficiente? Cadê os investimentos em educação, segurança, cultura e lazer? Ao ouvi-los, tive a impressão de estar diante de homens que tivessem acabado de descobrir o Brasil de verdade, de carne-e-osso-e-fome-e-dor, uma nação muito distinta daquele paraíso tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza... tamanhas eram suas revoltas e indignação. Desliguei a tv após o primeiro bloco. Seus achados e constatações eram redundantes para mim, de tão conhecidos (e suas promessas, idem). É naquele mundo invisível que eles e muitos outros só vêem quando lhes é conveniente que eu vivo e faço a minha parte para torná-lo melhor.

setembro 08, 2006

Olha Maria



"Mas hoje, Maria
Pra minha surpresa
Pra minha tristeza
Precisas partir
Parte, Maria
Que estás tão bonita
Que estás tão aflita
Pra me abandonar

(...)

Vai, alegria
Que a vida, Maria
Não passa de um dia
Não vou te prender
Corre, Maria
Que a vida não espera."
(Chico + Tom Jobim + Vinícius de Moraes > 1971)

HISTÓRICO: Quem já viveu um grande amor sabe o quão doloroso é seu fim. E muitas vezes, fazemos com que esse sofrimento se torne ainda maior. É quando queremos entender as razões, justamente com um sentimento que passa tão longe do racional, da lógica... Durante muitos anos, coloquei-me diante dessa situação como se fosse um estudioso que quisesse descobrir o que se passou, como foi que tudo aconteceu, quando o castelo começou a ruir, quais os sinais que não percebi, onde foi parar tudo que sonhamos, por que teve que ser assim... Tantas perguntas e (quase) nenhuma resposta deixavam como saldo uma dor incomodando por meses e meses, intensa, implacável, cruel. Mas o tempo - esse sábio aliado dos mortais - me ensinou que o amor quando acaba... apenas acaba e p(r)onto! Não há que se interrogar o outro, muito menos cobrar qualquer coisa. Em nenhum momento, ele nos acena com promessas de eternidade. Por isso, quando decide partir, não tem como prendê-lo. Os que tentam fazê-lo, encontram mais lamentos, desconfiança, agressões, infelicidade... E aqueles que afirmam ter conseguido é porque já não enxergam o que realmente os envolve e tomam por amor uma situação apaziguadora, respeitosa e insípida - que até pode possibilitar uma convivência harmoniosa, mas sem os arroubos de desejo, calor, cumplicidade e alegria que brotam da relação dos verdadeiros amantes. E quer saber? Se ainda julgamos amar a pessoa que está nos abandonando, o mais sensato é deixá-la ir embora e feliz - como a Maria desta canção. Afinal, a tristeza de um já é mais que suficiente, não é mesmo?

agosto 28, 2006

Deixe a menina



"Não é por estar na sua presença
Meu prezado rapaz
Mas você vai mal
Mas vai mal demais
São dez horas, o samba tá quente
Deixe a morena contente
Deixe a menina sambar em paz."
(Chico > 1980)

HISTÓRICO: Houve um tempo em que o amor que eu conhecia eram os de novela ou cinema. Aquela coisa linda mas assustadoramente cheia de obstáculos para se consumar. Dava até medo. Depois, fui aprendendo que ele não tinha que rimar com dor... quase nunca, desde que algumas regras fossem obedecidas. São muitos os ingredientes para levar uma relação ao sucesso. E no "modo de fazer" de todas as receitas de felicidade, uma orientação está sempre presente: amar requer liberdade. O ciúme - que traz consigo a falsa premissa de proteger o amor - acaba por matá-lo, ao não entender que o barzinho e a boate com os amigos ou o cinema sozinho não representam ameaça alguma. Porque é assim - livre - que o outro traz sorrisos, idéias, frescor, animação, tesão e novidades para a relação. Na verdade, as armadilhas que podem minar uma história de amor não estão na rua, mas dentro de casa mesmo.

agosto 08, 2006

O meu amor



"O meu amor
Tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca
Quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba malfeita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita, ai..."(Chico > 1977/1978)

HISTÓRICO: A vontade de encontrar e viver um grande amor parece ser um consenso. Mas é comum, também, ouvir piadinhas para desqualificar o prazer sexual de casais com relacionamentos duradouros. "O mesmo doce, todo dia, enjoa", dizem uns. "Iiiih, viraram irmãos", ironizam outros. Sempre desconfiei desses comentários. Sei dos desejos e do tesão que as novas conquistas proporcionam, porque já provei deles. Mas talvez o que muitos não saibam - exatamente por não ter vivenciado - é o quanto a entrega ao amor pode renovar o sexo. Amar e saber-se amado parece produzir uma química rejuvenescedora: a felicidade e o prazer do outro acendem os amantes, fazendo queimar os lábios, incendiar os lençóis e... serenar o sono. E poucas coisas podem ser mais excitantes do que descobrir o novo na pessoa que julgamos conhecer tanto e há muito tempo.

agosto 04, 2006

Angélica



"Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar

Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar."
(Chico + Miltinho > 1977)

HISTÓRICO: Sempre gostei muito dessa música. Mas só agora - com a estréia do filme do Sérgio Rezende - fiquei sabendo que tinha sido composta para Zuzu Angel, a estilista brasileira, pouco depois de sua morte. Então, o que já era belo ganhou uma dimensão ainda maior: de tristeza, de verdade, de encanto... Não quero assim dizer que, por ter os pés na realidade, uma canção ou um filme sejam melhores que seus congêneres da ficção; não é isso. Devo confessar, no entanto, que - na maioria das vezes - sinto-me mais tocado ao saber das referências reais de que a arte se apoderou para criar tantos sons e imagens maravilhosos.

julho 14, 2006

O velho Francisco



"Já gozei de boa vida
Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida
Roupa lavada
Vida veio e me levou

(...)

Quem me vê, vê nem bagaço
Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo
Em queda de braço
Vida veio e me levou."
(Chico > 1987)


HISTÓRICO: O tempo passa e leva (quase) tudo: amores, amigos, saúde, memória... Mas vez ou outra, ele parece dar uma trégua. Ou somos nós que conseguimos driblá-lo, fazendo a vida voltar as horas? No início de julho, isso aconteceu comigo. Por ocasião das minhas férias, resolvi aproveitar a primeira semana para levar meus pais - que moram no interior - aos seus médicos. Vieram para minha casa em Goiânia e - de repente - durante 6 dias, a magia se fez. Como não moro com eles há mais de 20 anos, nossos momentos (os três juntinhos mesmo) são raros: na casa deles, nem sempre é possível usufruir da presença do meu pai - que continua na ativa - em tempo integral. E nunca tinha dado certo dos dois virem na mesma ocasião. E a não ser para ir ao médico, não vêm para a "cidade grande" de jeito nenhum. O que sei é que - entre a maratona de consultas e exames - vivemos momentos maravilhosos. Saudade daquela intimidade, daquela rotina de café-almoço-e-jantar, daquelas risadas... Me senti um garotinho outra vez, ainda que em muitos momentos - por estarem no meu universo - pudesse parecer que eles fossem os meus filhos. Receber amor é bom demais, poder retribuir é uma bênção!

julho 05, 2006

Tanto amar



"Se seus olhos eu for cantar
Um seu olho me atura
E outro olho vai desmanchar
Toda a pintura

(...)

É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro."(Chico > 1981)

HISTÓRICO: Com esta música, aconteceu uma paixão à primeira audição. O tempo foi passando e eu gostando mais, percebendo melhor os significados. Em "Tanto amar", Chico apresenta uma descrição soberba da alma feminina a partir da análise do olhar: se um olho faz isso, o outro faz aquilo. Ainda que os versos "Amo tanto e de tanto amar" soem lindos e colem nos ouvidos, são as estrofes acima que me ganharam de vez. Na primeira, ele retrata a mulher amada, explorando a dualidade dos seus sentimentos: tem a força para encarar a parada e a emoção à flor da pele desaguando em lágrimas. Já na outra estrofe, a união das diferenças mostra-se poderosa: as janelas se convertem em espelhos. O homem que consegue juntar e entender o fogo e a água daqueles olhos vai enxergar a si mesmo diante de um grande dilema: arriscar-se nas ondas do amor ou ficar seguro - e só - em terra firme. Um conselho? Amar vale a pena, vale o naufrágio.


PS: Estou de férias desde sexta-feira. Por isso, as atualizações por aqui poderão ficar mais remotas. Tentarei não abandonar o blog durante todo o mês. Mas não prometo nada. Inté!

junho 28, 2006

Tanto mar



"Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

(...)

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar."
(Chico > 1975)

HISTÓRICO: No final de 1973, o povo português manifestou seu descontentamento contra o fascismo, a Guerra Colonial (13 anos de combate às colônias que buscavam independência) e a derrocada econômica, agitando o país com greves e intensas manifestações em várias frentes. Até que no dia 25 de abril de 1974, estimulado pela coragem e vontade das massas, um grupo de oficiais de média patente do exército enfrentou o governo e pôs fim a 48 anos de ditadura. Para comemorar, a população tomou as ruas, dessa vez para abraçar seus jovens soldados e enfeitar os fuzis com cravos. Por aqui, Chico compôs "Tanto mar", cuja melodia é - sem sombra de dúvida - uma das que mais me encantam. Começa lentinha e pungente, mas termina célere e alegre. E não poderia ser diferente: se a canção exaltava a Revolução dos Cravos em Portugal, também mostrava a tristeza e a dor que a opressão militar continuava provocando no Brasil.

junho 22, 2006

Piano na Mangueira



"A minha música não é de levantar poeira
Mas pode entrar no barracão
Onde a cabrocha pendura a saia
No amanhecer da quarta-feira
Mangueira
Estação Primeira de Mangueira."
(Chico + Tom Jobim > 1993)

HISTÓRICO: Dia desses, fui a um dos motéis mais badalados de Goiânia. Não estou entre os maiores freqüentadores desse tipo de local, mas a ocasião pedia. E por uns instantes, me vi adolescente outra vez, na maior expectativa, sonhando com cama redonda, banho de espuma, espelhos, hidromassagem e - claro! - muitas horas de sexo. Tentei me esquecer do quanto são bregas as decorações de motel e da fobia que tenho em relação à falta de higiene desses antros de amor e perdição - aqueles lacres de "esterilizado" não me convencem. Mas enfim... Estava lá e muito bem acompanhado: a noite tinha tudo para ser perfeita. No entanto, um detalhe vai ficar para sempre na memória. Na tentativa de escolher a iluminação certa para encher o ambiente de romantismo, não pude conter o riso quando - ao abertar um dos inúmeros botões do painel de luzes - o teto e a sanca se coloriram de verde-e-rosa. Putz! Não tem romantismo que resista àquilo. Ainda que eu seja um mangueirense apaixonado, a combinação cromática foi demais para o momento. Fiquei pensando nas piadinhas infames que as cores da Estação Primeira costumavam gerar. Mas tratei logo de clicar outro botão para encontrar a penumbra aconchegante de uma luz amarelada mais fraquinha. E como o amor transforma tudo, do carnaval fez-se um "grand pas de deux" e a noite acabou sendo mesmo inesquecível.

junho 13, 2006

Pivete



"No sinal fechado
Ele vende chiclete
Capricha na flanela
E se chama Pelé

(...)

Zanza na sarjeta
Fatura uma besteira
E tem as pernas tortas
E se chama Mané
Arromba uma porta
Faz ligação direta
Engata uma primeira
E até."(Chico + Francis Hime > 1978)

HISTÓRICO: Assisto apático a toda essa histeria em torno da Seleção e de mais uma Copa do Mundo. Nos noticiários, parece não haver coisa mais importante para ser mostrada. Nas ruas, o verde-e-amarelo arranca elogios e defesas exaltadas de torcedores de todas as idades e classes sociais. De uma hora para outra, é como se a economia tivesse se transformado e a produção dado um salto fenomenal. Só isso justificaria o fato do país parar - literalmente - por causa de um jogo. Sinceramente, gostaria de ver tanta disposição e união em função de causas mais nobres. Eu abriria mão de todos os títulos do Brasil por investimentos mais sérios na educação. Entregaria esse "sonho do hexa" em troca de uma política social decente que nos tirasse da vergonhosa lista dos 10 países com a pior distribuição de renda do mundo. E sentiria mais orgulho de ser brasileiro, se nossas crianças e jovens fossem craques com livros nas mãos e não com bolas nos pés.

junho 01, 2006

Dueto



"Consta nos astros
Nos signos
Nos búzios
Eu li num anúncio
Eu vi no espelho
Tá lá no evangelho
Garantem os orixás
Serás o meu amor
Serás a minha paz

Consta nos autos
Nas bulas
Nos dogmas
Eu fiz uma tese
Eu li num tratado
Está computado
Nos dados oficiais
Serás o meu amor
Serás a minha paz

Mas se a ciência provar o contrário
E se o calendário nos contrariar?

Mas se o destino insistir
Em nos separar?

Danem-se
Os astros

Os autos
Os signos
Os dogmas
Os búzios
As bulas
Anúncios
Tratados
Ciganas
Projetos
Profetas
Sinopses
Espelhos
Conselhos
Se dane o evangelho
E todos os orixás
Serás o meu amor
Serás, amor, a minha paz."
(Chico > 1979)


HISTÓRICO: Felizes. Era assim que eu estavam naquela noite. Uma história sonhada sim, mas - principalmente - construída com carinho, com afeto, suor (muito) e lágrimas (poucas). Tudo foi dando tão certo que parecia mesmo estar escrito que tinha de acontecer. Certamente, eles rabiscaram algumas linhas, apagaram parágrafos inteiros e escreveram muitas outras páginas. Afinal, para amar não existe receita pronta e testada. É preciso querer muito, arriscar, rever, aprender, ensinar, respeitar... sempre e um dia mais. Amém!

maio 26, 2006

Nicanor



"Onde andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro
Quando tratava de amor
Há tanta moça na espera
Suas gentis primaveras
Um desperdício de flor

Onde andará Nicanor?
Tinha amor pro porto inteiro
Um peito de remador
Ah, quem me dera as morenas
Pra consolar suas penas
Para abrandar seu calor."
(Chico > 1969)


HISTÓRICO: Estimulado por uma gincana cultural hospedada no site do Chico que visava à divulgação do cd "Carioca", pus-me a pensar sobre o paradeiro do galanteador personagem da canção de hoje. E vocês não fazem idéia das viagens que idealizei a partir dessa proposta. A pergunta era "Onde andará Nicanor?" e - depois de imaginar muitas possibilidades - respondi assim: "Elas eram doces, cheirosas e ardentes... E muito observadoras também. Não demoraram para notar que ele andava com as mãos sujas de terra de outros canteiros. Vingativas, armaram uma para Nicanor. Assim que chegou ao jardim de Margarida, o moço deu de cara também com Rosa, Magnólia, Hortênsia, Yasmim, Violeta, Dália, Camélia e Amarílis. Ataram-no com aqueles nós que ele tão bem conhecia e arrastaram aquele corpo - outrora tão desejado - até o porto. Lançado ao mar, ele sorria. A água distorcia a imagem do cais, misturando e multiplicando todas as flores. Era o jardim mais lindo que cultivara. E nunca pensara que mereceria tantas cores e perfumes na hora do seu último adeus."

maio 23, 2006

Uma palavra



para amigos e amigas

"Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

(...)

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra."
(Chico >1989)


HISTÓRICO: Nas suas bocas, as palavras ganham dimensões que não encontro tradução em dicionário algum. Presto atenção em cada sílaba para que os significados não me escapem. Porque eles - quando falam - mexem com muitas emoções e sentimentos, estimulam mil sonhos e outras mil e uma esperanças. Dos lábios deles saem verdades, descobertas pelos (des)caminhos, encontradas sob pedras, reforçadas pela escrita ou lavadas por tantas lágrimas. Seus suspiros também falam de dúvidas, que me inquietam por me instigarem a (re)pensar minhas certezas. Às vezes, eles matam as palavras, esquecendo-se (será?) que aquele silêncio me revela muito. Calo, também... Sei que é preciso recarregar, ganhar forças, para que - num outro dia - as palavras sejam cuspidas como balas de um sorriso metralhador. E assim, atingido por elas, entrego-me à delícia de tantas histórias compartilhadas. Desprendo-me de tudo e - como num filme - relembro infinitas demonstrações de carinho, apoio e cumplicidade. E sussuro uma palavra: obrigado.

maio 17, 2006

Maninha



"Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal
Feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha
Falava de amor
Pois nunca mais cantei, ó maninha
Depois que ele chegou."
(Chico > 1977)

HISTÓRICO: Quando o Chico compôs essa canção, os tempos eram outros: a ditadura militar inibia, silenciava, torturava, matava... Ainda assim, o povo se rebelava, ia para as ruas, perdia a vida, nunca a voz. A guerrilha urbana - provocada pelo PCC nos últimos dias em São Paulo - me fez pensar no silêncio do "brasileiro pós-abertura". Não parece paradoxal? Há quanto tempo sentimos a violência se aproximar? Primeiro, da nossa cidade; depois, do nosso bairro, nossa rua, nossa calçada, nossa casa, nossa janela. E não fazemos nada, a não ser colocar grades, travas, alarmes, sensores, câmeras... Já passou da hora de irmos às ruas pedir respeito, segurança e atitude. Gritar, espernear, xingar, cobrar de quem é pago para garantir a nossa paz. Até quando vamos ficar nos escondendo, apenas esperando? Viver com medo é pequeno demais.

maio 12, 2006

Sempre

"O teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso, o teu silêncio
Serão meus ainda e sempre

Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que bastantes
Quando cada instante é sempre."

(Chico > 2006)

HISTÓRICO: Essa canção do Chico me ganhou no ato, logo na primeira audição do recente "Carioca". Muitos reclamam que com o passar do tempo, a chama do amor vira brasa que vira cinza que o vento espalha até sumir. Mas por que tem de ser assim? Se a longevidade de uma relação tem receita, um dos ingredientes essenciais é o "sempre", o não-esquecer dos pequenos - mas tão importantes - prazeres do dia-a-dia. Não deixar para trás os tantos detalhes que povoaram cada instante da descoberta e da conquista é a melhor maneira de perpetuar todos esses instantes por anos ou décadas, até chegar a hora derradeira do amor. Ou não.

maio 03, 2006

Samba e amor



"Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade, que arde
E apressa o dia de amanhã

De madrugada a gente ainda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama, reclama
Do nosso eterno espreguiçar."
(Chico > 1969)

HISTÓRICO: Esquivar-se da loucura urbana a fim de preservar o amor. Talvez seja isso que falte aos amantes atuais. Reclamamos que os relacionamentos são fugazes demais, mas dedicamos pouco (ou quase nenhum) tempo ao cultivo dos afetos. Encontramos horários para o trabalho, academia, estudos, viagem, filhos, cervejinha, cinema, boate, internet, shopping... Não para o amor. Se estamos sozinhos, agimos como se ele pudesse esperar o momento ideal; se já estamos acompanhados, é o parceiro quem tem de entender toda essa sobrecarga de compromissos. Acontece que o amor é ardiloso: não aparece na hora que queremos e não costuma compreender desprezo e desatenção. E vive muito mais das pequenas atenções e carinhos do que dos grandes arroubos de festas, jantares, noitadas e presentes.

abril 29, 2006

Retrato em branco e preto



para D.

"O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar."(Chico + Tom Jobim > 1968)

HISTÓRICO: Abandonar o amor não é tarefa fácil mesmo. Porque se um mergulho nas suas águas costuma ser inevitável, sair delas parece praticamente impossível, tarefa quase sobre-humana. E de onde tirar forças para vencer as correntes que puxam para o fundo? Não sei a resposta. Mas sei que não dá para ficar à deriva, quando o horizonte só mostra trovoadas e tempestades. Também não é o caso de ficar lutando contra as evidências, debatendo-se em desespero. Isso só gera fadiga, que leva ao afogamento ou nos induz a aceitar a bóia furada de novas promessas. Não seria, então, o momento de encarar os fatos, reconhecer as próprias forças (que pareciam perdidas) e analisar o desafio? Aí, é nadar até a praia ou levantar a mão para o salva-vidas.

abril 25, 2006

Iracema voou



para C.

"Iracema voou

Para a América
Leva roupa de lã
E anda lépida
Vê um filme de quando em vez
Não domina o idioma inglês
Lava chão numa casa de chá."(Chico > 1998)

HISTÓRICO: Além da melodia gostosa, essa música traz o Chico brincando outra vez com as letras: Iracema é anagrama de América. Mas não é por isso que estou escrevendo: é que a minha Iracema voou para os Estados Unidos já há alguns anos. Ainda não domina o inglês, mas está bem melhor que a da canção: trabalha numa loja de grife, já está casada, tem um bebezão que é um anjo, não precisa fugir da polícia e nunca me liga a cobrar. Foi atrás do sonho que julgava ser impossível alcançar aqui. Foi ser feliz e deixou uma saudade enorme. Sinto falta da gargalhada sonora, das palavras francas, dos almoços nos shoppings, da mão estendida sempre, essas coisas que fazem a vida valer a pena.

abril 20, 2006

O meu guri



"Chega suado e veloz do batente
E traz sempre um presente pra me encabular
Tanta corrente de ouro, seu moço
Que haja pescoço pra enfiar
Me trouxe uma bolsa já com tudo dentro
Chave, caderneta, terço e patuá
Um lenço e uma penca de documentos
Pra finalmente eu me identificar, olha aí
Olha aí, ai o meu guri, olha aí
Olha aí, é o meu guri."
(Chico > 1981)

HISTÓRICO: O documentário "Falcão - Meninos do Tráfico", exibido no "Fantástico" da Rede Globo há algumas semanas, chocou meio mundo. E não foi por pouca coisa: é desanimador não ver esperança nos olhos de quem tem a vida pela frente. O que estamos fazendo - ou deixando de fazer - com as nossas crianças? Não será grande uma nação que permite que roubem a inocência e a alegria de tantos meninos e meninas que vivem nos morros e nas ruas. Apontar, repudiar, prever o futuro delas e falar do medo que provocam com seus estiletes, revólveres ou sacos de cola não muda nada. Já pensou por que eles abandonam infância e casa para ficar ao relento ou sob o fogo cruzado? E fingir que existe um universo paralelo onde todos os excluídos - crianças ou não - trafegam é ingenuidade. Mais cedo ou mais tarde, eles vão atravessar os nossos caminhos, invadir nossas casas, quebrar as janelas dos nossos carros... O que pode ser feito? Esse é o desafio de cada um de nós. Abracemos uma causa, uma ong, um serviço de voluntariado ou vamos cobrar de quem pode mudar essa triste realidade. Mas não fiquemos fazendo de conta que não é conosco.

abril 19, 2006

Trocando em miúdos



“Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim
Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim?
O resto é seu

Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas do amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças.”
(Chico + Francis Hime > 1978)


HISTÓRICO: Quando é que o amor abandona seus escolhidos? Por que é que ele faz as malas? Para onde vai todo o desejo? O que fazer com os planos que ficam? Ainda que seja difícil responder a qualquer uma dessas questões, o mais sensato para mim é aceitar o fim. Remoer o passado em busca de pistas que desvendem o mistério só costuma trazer mais dor. Acabou. Se alguma coisa poderia ser feita, a separação é a sentença de que já é tarde demais. Eu sei que existem voltas, mas elas nunca funcionaram para mim. Será mesmo que funcionam para alguém?. Chego a duvidar que o amor possa ser resgatado. Não me parece ser essa a natureza de tão nobre sentimento: amar pede cuidado em tempo integral, porque pode ser impossível colar os cacos depois. Assim, quebrado o encanto, diga adeus, deseje boa sorte e siga em frente. Sofrer ou fazer sofrer - além do que é realmente inevitável - acaba por cegar os amantes, jogando na escuridão toda a beleza do que foi vivido intensamente. E é muito ruim quando não fica nada daquilo que outrora foi tudo para nós.

abril 06, 2006

Flor da idade



"Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor
(...)
Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor
(...)
Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor


Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa
que amava Paulo que amava Juca que amava Dora
que amava

Carlos amava Dora que amava Rita que amava Dito

que amava Rita que amava Dito que amava Rita
que amava

Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto
que amava a filha que amava Carlos que amava Dora
que amava toda a quadrilha."
(Chico > 1973)

HISTÓRICO: Adoro essa canção por causa da melodia alegre, da referência a Drummond e da genialidade do compositor que - ao acrescentar uma única e mesma letra aos últimos versos das três primeiras estrofes - cria muito mais que novas palavras, mas outras situações que ilustram tão bem as aventuras típicas da flor da idade.

abril 05, 2006

Renata Maria




"Dia após dia na praia
Com olhos vazados de já não a ver
Quieto como um pescador a juntar seus anzóis
(...)

Praia repleta de rastros em mil direções

Penso que todos os passos perdidos são meus."(Chico + Ivan Lins > 2005)

HISTÓRICO: Ah, a espera e seus desdobramentos... Quando as expectativas são boas, ela tem a companhia dos sonhos, dos suspiros, da felicidade tão próxima, da ansiedade que conta as horas através dos segundos. Se é o contrário e a dúvida emperra as certezas, a espera traz para perto de si a dor, a angústia, a solidão, a tristeza, a impaciência, a lentidão dos décimos de segundo que se arrastam por horas. E aí é olhar para rua, espelho e relógio, ajeitar cabelo e roupa, caminhar de lá para cá e de cá para lá tantas, inúmeras e infinitas vezes, como se cada uma dessas atitudes pudesse afastar a sensação de abandono e de perda que já pesa sobre a alma outrora leve.

abril 03, 2006

Olhos nos olhos



"E que venho até remoçando
Me pego cantando
Sem mas nem porque
E tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você

Quando talvez precisar de mim
'Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos, quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz."
(Chico > 1976)

HISTÓRICO: Mãe Menininha do Gantois adorava ouvir Bethânia cantar "Olhos nos olhos". Certa vez, perguntou à intérprete baiana se aquela música tinha sido escrita mesmo por um homem. Diante do "sim, foi composta por Chico Buarque de Hollanda", a mãe-de-santo sentenciou: "Pois ele deve ter é um buraco no peito". Parecia-lhe impossível que um coração masculino pudesse traduzir tão bem os sentimentos de uma mulher. Essa história está no filme "Maria Bethânia - Música é perfume", do suíço Georges Gachot, e descreve uma característica que já é lugar-comum quando se fala da obra buarqueana: o entendimento da alma feminina. "Olhos nos olhos" fala de dor ("quase enlouqueci"), resignação ("mas, depois, como era de constume obedeci"), vingança ("quantos homens me amaram bem mais e melhor que você") e superação (sem você, eu passo bem demais"). E é realmente impressionante que um homem tenha escrito isso.

março 31, 2006

Mil perdões



"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais
Te perdôo

(...)

Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim

(...)

Te perdôo
Por te trair."
(Chico > 1983)

HISTÓRICO: Essa canção sempre me encantou e intrigou ao tratar de desconfianças e traições, retratando uma relação doentia onde um dos amantes comete vários absurdos desnorteado por um ciúme atroz, enquanto o outro, ironicamente, perdoa tudo. Quando a insegurança começa a rondar as horas de quem ama, perde-se o rumo, o prumo, o senso, a alegria, a auto-estima, a vergonha... Mas, analisando o outro lado, como entender alguém que consegue tocar sua vida mesmo vendo o parceiro nesse processo de destruição? Amor não combina com isso. E se ele acabou, que tal um adeus? Macular um sentimento assim com atitudes tão vis é sacrilégio que deveria ser punido pelos deuses com anos e anos de solidão.

março 29, 2006

Cecília



"Quantos artistas
Entoam baladas
Para suas amadas
Com grandes orquestras
Como os invejo
Como os admiro
Eu, que te vejo
E nem quase respiro

(...)

Me escutas, Cecília?

Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença
Palavras são brutas."

(Chico + Luiz Cláudio Ramos > 1998)

HISTÓRICO: Sei da importância do silêncio. Mas sou adepto das palavras. Tenho necessidade de libertá-las. Talvez para colocar minhas idéias e sentimentos à prova. Ou para que - exteriorizando o que martela na minha cabeça - eu possa finalmente tomar consciência de que tudo aquilo é real e está acontecendo mesmo. Costumo ser muito objetivo em relação ao que penso. Não sei ficar remoendo possibilidades, suposições, dúvidas, medos. Nessas horas, a palavra é minha aliada mais valente. Solto-as, uma a uma, com calma, na certeza de que o diálogo vai ser produtivo, termine a história com final feliz ou não. Ainda assim, entendo perfeitamente o que o Chico descreve em "Cecília". Muitas vezes, traduzir afeto é quase impossível, como se as palavras não conseguissem significar o que realmente expressam. Travo. Porque na dúvida, o silêncio parece revelar muito mais. Mas não adianta. Só preciso dele pelo tempo de um suspiro, como se o ar que entra pelos pulmões soprasse meu coração, liberando - finalmente - as frases de amor que precisam ser ditas.

março 23, 2006

Cotidiano












"Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

(...)


Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão."
(Chico > 1971)

HISTÓRICO: É lugar-comum dizer que a rotina destrói relações. Discordo. O que é viver então? Todo dia a gente faz tudo sempre igual e levanta - uns às 5, outros às 6 ou 7h30 - para ir trabalhar; ao meio-dia, vai almoçar; volta às 14h para o escritório, fábrica ou loja, onde fica até as 18h; à noite, casa, novela, jantar e cama; tem dia de fazer supermercado, de faxinar o apartamento, de levar o cachorro para o banho, de ir ao banco, de buscar filho no colégio, etc, etc, etc. E já reparou a dor de cabeça que dá quando qualquer uma dessas coisas foge do controle? Na verdade, a rotina é necessária para manter tudo nos eixos. E no amor, não é diferente. É bom demais saber do beijo de manhã, do prazer do almoço a dois, da gargalhada ao telefone no meio da tarde, do aconchego em casa à noite, das mãos apertadas no cinema, das brincadeiras na cama, do sono e sonhos compartilhados. Não é isso que corrói as relações. As traças do amor têm outros nomes. E todas elas podem ser combatidas com atenção, respeito e verdade.

março 21, 2006

Palavra de mulher



“Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar pra trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar
Falar besteira e me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar.”(Chico > 1985)

HISTÓRICO: Ah, as contradições dos amantes... Quantos “estou indo” ditos, quando - na verdade - a vontade doida era de ficar? Por que o silêncio, quando - no fundo - queríamos gritar somente um “eu te amo”? Alguém escreveu nesses manuais de relacionamento que não se deve entregar assim, de cara, tudo o que sentimos sob o risco de sermos esnobados. Mas, espera aí! Dessa maneira, o amor não passa a ser tratado como um jogo? E de um jogo, espera-se o quê? Um vencedor. Parece-me, então, que a gênese de tantos romances fracassados esteja nesse equívoco. Na verdade, amar pede entrega, parceria e cumplicidade. Sem medo de adjetivos, exclamações e interrogações.

março 18, 2006

Geni e o Zepelim



"Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro

(...)

Acontece que a donzela -
E isso era segredo dela -
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos

(...)

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco

(...)

Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni!"
(Chico > 1977/1978)

HISTÓRICO: Como já disse num dos posts anteriores, long-plays eram raros na minha casa, não cabiam no nosso orçamento. Mas, por volta dos meus 13 anos, a paixão pela mpb bateu de verdade e eu passei a buscar tudo o que podia ouvir. Comecei sintonizando a Rádio Jornal de Brasília todas as noites, antes de dormir. Ligava o radinho de pilha, colocava-o entre a cama e a parede e ficava horas escutando toda aquela diversidade musical recém-descoberta. Mas ficava horas mesmo, a ponto de meus pais gritarem do quarto deles para eu desligar o rádio. Queria porque queria saber qual seria a música seguinte. E essa curiosidade me mantinha alerta, afastando o sono. Pouco tempo depois, já no final dos anos 70, descobri que minha tia Maria tinha um acervo de lps em seu quarto. E foi lá, enquanto ela trabalhava, que eu passava as tardes descobrindo tesouros e gravando minhas fitas cassetes. Assim, descobri essa coletânea do Chico (foto acima) que continha, dentre outras canções, "Geni e o Zepelim". Talvez por causa dos versos debochados que tanto entusiasmam os adolescentes, foi ela a canção que me marcou naquele momento. E olha que, àquela época, eu nem sabia que a valente Geni era uma travesti.

março 14, 2006

Tatuagem



"Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço."

(Chico + Ruy Guerra > 1972/1973)

HISTÓRICO: A maneira com que esses versos descrevem o amor sempre me encantou. Porque apesar de todos os percalços que uma relação possa atravessar (e as outras estrofes de "Tatuagem" revelam isso), esta situação é - a meu ver - a melhor descrição de como se viver uma grande história. Quem conhece a rotina do ballet sabe que para alcançar toda aquela leveza e equilíbrio, é necessário trabalhar com empenho, treinar diariamente, sentir dores, etc, etc. Depois, dançar vira brincadeira, prazer, aconchego; é sede de saciar o desejo de movimento, é saltar e dar piruetas até o corpo não poder mais. E viver a dois também não é assim?

março 13, 2006

Pois é


"Então
Disfarçar minha dor eu não consigo
Dizer: somos sempre bons amigos
É muita mentira para mim

Enfim
Hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação

Pois é
E então..."

(Chico + Tom Jobim > 1968)

HISTÓRICO: Outra canção que ninguém gravou como Elis. Tristeza e dor escorrem a cada verso, devagarzinho, praticamente entre sussuros, exatamente como deve ser admitir o fim de uma grande história de amor. Aliás, por que será que o amor acaba? Quando é que os beijos - antes doces - começam a travar? Ainda são os mesmos aqueles braços que outrora protegiam e agora parecem aprisionar? Vencer o tempo, esse inimigo ardiloso, requer cuidado, atenção, carinho, respeito, verdade... Os anos passados juntos não dão inumidade à relação. É preciso agir todos os dias como se fosse a primeira vez.

março 10, 2006

Tororó



"Antes da mulher
Era um dissabor
Era um desprazer
Que fazia dó

(...)

Dentro da fêmea, 
Deus pôs lagos e grutas, canais
Carnes e curva e cós
Seduções e pecados infernais
Em nome dela, depois
Criou perfumes, cristais
O campo de girassóis
E as noites de paz."
(Chico + Edu Lobo > 1987/1988)

HISTÓRICO: O excesso de trabalho me obrigou a ficar ausente deste espaço por alguns dias. Tinha planejado postar "Tororó" no Dia Internacional da Mulher, mas cadê tempo? Chego com atraso para dizer que acho esse "8 de março" estranho. Não consigo dizer "parabéns" com naturalidade. Penso que o dia é muito mais de luta e reflexão. Enquanto houver mulheres silenciadas, violentadas, desrespeitadas, assediadas, humilhadas, mutiladas no corpo e na alma, não dá para festejar. Ainda assim, não resisti ao louvor que Chico e Edu fizeram para essas companheiras de toda hora.

março 06, 2006

As minhas meninas



para Elayne e Andrea

"As meninas são minhas
Só minhas na minha ilusão
Na canção cristalina
Da mina da imaginação

Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de não
E a solidão
Maltratar as meninas
As minhas não

As meninas são minhas
Só minhas
As minhas meninas
Do meu coração."

(Chico > 1986)

HISTÓRICO: Conheço uma há quase 20 anos. E desde o primeiro momento sabia que poderia contar com ela para o que desse-e-viesse. Às vezes, s
umimos um do outro por dias, meses, ano até. Mas um encontro inesperado ou um simples telefonema sempre foram suficientes para acender todo o amor, como se nenhum segundo houvesse passado sem que tivéssemos nos falado. A outra, conheço há menos tempo, uns 5 anos talvez. Digo talvez, porque a afinidade entre nós é tanta que me faz confundir as datas, por parecer que a amo desde sempre. Também não nos vemos com a frequência que gostaríamos, mas a distância jamais foi um perigo para nosso sentimento. Encontrá-la é estar pertinho da alegria, do aconchego. O incidente da última quinta-feira me fez entender mais claramente a missão dos amigos. Para cada soluço, as minhas meninas tinham um abraço; para o meu silêncio, as minhas meninas me entregavam paz; para tantos lamentos, as minhas meninas viravam ouvidos e colos; para todo o desamparo, as minhas meninas transformavam-se em porto seguro; para toda a solidão, as minhas meninas me levavam calor. É por essas e muitas outras que elas são as minhas meninas do meu coração.

março 03, 2006

Como um samba de adeus



para Claus

"Quanto tempo
Mina d'água do meu canto
Manso
Piano e voz
Vento
Campo
Dentro
Antro
Onde reside o lamento preto
Da minha voz

Tanto tempo
Como nunca mais, eu penso
Como um samba de adeus
Com que jeito acenar
O meu lenço branco."
(Chico + Caetano Veloso > 1995)

HISTÓRICO: Sem inspiração. O que eu tinha chorado em "Abandono" (post de 7/2), aconteceu ontem. Ele está descansando no jardim da casa de duas grandes amigas. Fiz questão de fazer tudo por ele. Até o fim. Enxada, cavadeira, pá, buraco, chuva, lama, lágrimas, mil lágrimas. Carregá-lo para o seu último leito. Seu corpo leve ganhava um peso enorme, meus braços longos pareciam não alcançar o fundo. Era a despedida indesejada, adiada, sofrida. Como um quebra-cabeça às avessas, os torrões de terra iam lentamente escondendo meu grande companheiro, até revelar a escuridão, o nada, numa sequência distorcida pelos mares dos meus olhos. O adeus é infinito. O amor também.

fevereiro 23, 2006

Teresinha



"Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não."
(Chico > 1977/1978)

HISTÓRICO: Essa canção sobre três abordagens do amor sempre me encantou. No início, porque sua estrutura de ciranda tinha tudo a ver com a minha infância. Aliás, quem não se lembra do clipe de “Os trapalhões” para essa canção, com o Renato Aragão fazendo Maria Bethânia/Teresinha, enquanto Dedé, Mussum e Zacarias representavam os três cavalheiros que abordavam a donzela? Era hilário – pelo menos é o que ficou registrado na memória da criança que eu fui. Depois de alguns anos, já adulto, o encantamento veio pelo que as situações de conquista ali retratadas me traziam de verdade. Quantas vezes eu já fora “Teresinha”! Indeciso, apressado, medroso, desconfiado... Umas vezes a pedir tudo; outras, a querer nada. Um dia sonhando ser tratado como um deus; noutro, como o mais simples dos mortais, com todas as minhas fraquezas e desejos. Pensando no sim e dizendo o não. E vice-versa. Por tudo isso, é uma música que ainda hoje me toca muito.

fevereiro 21, 2006

A moça do sonho



"Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava jamais."
(Chico + Edu Lobo > 2001)

HISTÓRICO: Dentre todas as emoções que o dvd "Maricotinha ao vivo" de Maria Bethânia me proporcionou, uma delas foi conhecer esses versos maravilhosos. E a música é tão especial que a cantora baiana pontuou seu show com ela, cantando fragmentos de "A moça do sonho" no início, no meio e no fim do espetáculo. E não era para menos: quantas vezes você já viu a busca do ser amado ser descrita e musicada com tanto sentimento? Espera aí: os relógios que rodam para trás me fazem lembrar das horas contadas pra trás de "Valsa brasileira". Tá bom. Você já tinha visto o amor ser retratado com igual intensidade 13 anos atrás, também por Chico e Edu. Êta duplinha danada!