março 31, 2006

Mil perdões



"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais
Te perdôo

(...)

Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim

(...)

Te perdôo
Por te trair."
(Chico > 1983)

HISTÓRICO: Essa canção sempre me encantou e intrigou ao tratar de desconfianças e traições, retratando uma relação doentia onde um dos amantes comete vários absurdos desnorteado por um ciúme atroz, enquanto o outro, ironicamente, perdoa tudo. Quando a insegurança começa a rondar as horas de quem ama, perde-se o rumo, o prumo, o senso, a alegria, a auto-estima, a vergonha... Mas, analisando o outro lado, como entender alguém que consegue tocar sua vida mesmo vendo o parceiro nesse processo de destruição? Amor não combina com isso. E se ele acabou, que tal um adeus? Macular um sentimento assim com atitudes tão vis é sacrilégio que deveria ser punido pelos deuses com anos e anos de solidão.

março 29, 2006

Cecília



"Quantos artistas
Entoam baladas
Para suas amadas
Com grandes orquestras
Como os invejo
Como os admiro
Eu, que te vejo
E nem quase respiro

(...)

Me escutas, Cecília?

Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença
Palavras são brutas."

(Chico + Luiz Cláudio Ramos > 1998)

HISTÓRICO: Sei da importância do silêncio. Mas sou adepto das palavras. Tenho necessidade de libertá-las. Talvez para colocar minhas idéias e sentimentos à prova. Ou para que - exteriorizando o que martela na minha cabeça - eu possa finalmente tomar consciência de que tudo aquilo é real e está acontecendo mesmo. Costumo ser muito objetivo em relação ao que penso. Não sei ficar remoendo possibilidades, suposições, dúvidas, medos. Nessas horas, a palavra é minha aliada mais valente. Solto-as, uma a uma, com calma, na certeza de que o diálogo vai ser produtivo, termine a história com final feliz ou não. Ainda assim, entendo perfeitamente o que o Chico descreve em "Cecília". Muitas vezes, traduzir afeto é quase impossível, como se as palavras não conseguissem significar o que realmente expressam. Travo. Porque na dúvida, o silêncio parece revelar muito mais. Mas não adianta. Só preciso dele pelo tempo de um suspiro, como se o ar que entra pelos pulmões soprasse meu coração, liberando - finalmente - as frases de amor que precisam ser ditas.

março 23, 2006

Cotidiano












"Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

(...)


Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão."
(Chico > 1971)

HISTÓRICO: É lugar-comum dizer que a rotina destrói relações. Discordo. O que é viver então? Todo dia a gente faz tudo sempre igual e levanta - uns às 5, outros às 6 ou 7h30 - para ir trabalhar; ao meio-dia, vai almoçar; volta às 14h para o escritório, fábrica ou loja, onde fica até as 18h; à noite, casa, novela, jantar e cama; tem dia de fazer supermercado, de faxinar o apartamento, de levar o cachorro para o banho, de ir ao banco, de buscar filho no colégio, etc, etc, etc. E já reparou a dor de cabeça que dá quando qualquer uma dessas coisas foge do controle? Na verdade, a rotina é necessária para manter tudo nos eixos. E no amor, não é diferente. É bom demais saber do beijo de manhã, do prazer do almoço a dois, da gargalhada ao telefone no meio da tarde, do aconchego em casa à noite, das mãos apertadas no cinema, das brincadeiras na cama, do sono e sonhos compartilhados. Não é isso que corrói as relações. As traças do amor têm outros nomes. E todas elas podem ser combatidas com atenção, respeito e verdade.

março 21, 2006

Palavra de mulher



“Vou voltar
Haja o que houver, eu vou voltar
Já te deixei jurando nunca mais olhar pra trás
Palavra de mulher, eu vou voltar
Posso até
Sair de bar em bar
Falar besteira e me enganar
Com qualquer um deitar
A noite inteira
Eu vou te amar.”(Chico > 1985)

HISTÓRICO: Ah, as contradições dos amantes... Quantos “estou indo” ditos, quando - na verdade - a vontade doida era de ficar? Por que o silêncio, quando - no fundo - queríamos gritar somente um “eu te amo”? Alguém escreveu nesses manuais de relacionamento que não se deve entregar assim, de cara, tudo o que sentimos sob o risco de sermos esnobados. Mas, espera aí! Dessa maneira, o amor não passa a ser tratado como um jogo? E de um jogo, espera-se o quê? Um vencedor. Parece-me, então, que a gênese de tantos romances fracassados esteja nesse equívoco. Na verdade, amar pede entrega, parceria e cumplicidade. Sem medo de adjetivos, exclamações e interrogações.

março 18, 2006

Geni e o Zepelim



"Mas de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
O guerreiro tão vistoso
Tão temido e poderoso
Era dela, prisioneiro

(...)

Acontece que a donzela -
E isso era segredo dela -
Também tinha seus caprichos
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e a cobre
Preferia amar com os bichos

(...)

Foram tantos os pedidos
Tão sinceros, tão sentidos
Que ela dominou seu asco
Nessa noite lancinante
Entregou-se a tal amante
Como quem dá-se ao carrasco

(...)

Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir
Joga pedra na Geni
Joga bosta na Geni
Ela é feita pra apanhar
Ela é boa de cuspir
Ela dá pra qualquer um
Maldita Geni!"
(Chico > 1977/1978)

HISTÓRICO: Como já disse num dos posts anteriores, long-plays eram raros na minha casa, não cabiam no nosso orçamento. Mas, por volta dos meus 13 anos, a paixão pela mpb bateu de verdade e eu passei a buscar tudo o que podia ouvir. Comecei sintonizando a Rádio Jornal de Brasília todas as noites, antes de dormir. Ligava o radinho de pilha, colocava-o entre a cama e a parede e ficava horas escutando toda aquela diversidade musical recém-descoberta. Mas ficava horas mesmo, a ponto de meus pais gritarem do quarto deles para eu desligar o rádio. Queria porque queria saber qual seria a música seguinte. E essa curiosidade me mantinha alerta, afastando o sono. Pouco tempo depois, já no final dos anos 70, descobri que minha tia Maria tinha um acervo de lps em seu quarto. E foi lá, enquanto ela trabalhava, que eu passava as tardes descobrindo tesouros e gravando minhas fitas cassetes. Assim, descobri essa coletânea do Chico (foto acima) que continha, dentre outras canções, "Geni e o Zepelim". Talvez por causa dos versos debochados que tanto entusiasmam os adolescentes, foi ela a canção que me marcou naquele momento. E olha que, àquela época, eu nem sabia que a valente Geni era uma travesti.

março 14, 2006

Tatuagem



"Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço."

(Chico + Ruy Guerra > 1972/1973)

HISTÓRICO: A maneira com que esses versos descrevem o amor sempre me encantou. Porque apesar de todos os percalços que uma relação possa atravessar (e as outras estrofes de "Tatuagem" revelam isso), esta situação é - a meu ver - a melhor descrição de como se viver uma grande história. Quem conhece a rotina do ballet sabe que para alcançar toda aquela leveza e equilíbrio, é necessário trabalhar com empenho, treinar diariamente, sentir dores, etc, etc. Depois, dançar vira brincadeira, prazer, aconchego; é sede de saciar o desejo de movimento, é saltar e dar piruetas até o corpo não poder mais. E viver a dois também não é assim?

março 13, 2006

Pois é


"Então
Disfarçar minha dor eu não consigo
Dizer: somos sempre bons amigos
É muita mentira para mim

Enfim
Hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
Pra quem só lhe foi dedicação

Pois é
E então..."

(Chico + Tom Jobim > 1968)

HISTÓRICO: Outra canção que ninguém gravou como Elis. Tristeza e dor escorrem a cada verso, devagarzinho, praticamente entre sussuros, exatamente como deve ser admitir o fim de uma grande história de amor. Aliás, por que será que o amor acaba? Quando é que os beijos - antes doces - começam a travar? Ainda são os mesmos aqueles braços que outrora protegiam e agora parecem aprisionar? Vencer o tempo, esse inimigo ardiloso, requer cuidado, atenção, carinho, respeito, verdade... Os anos passados juntos não dão inumidade à relação. É preciso agir todos os dias como se fosse a primeira vez.

março 10, 2006

Tororó



"Antes da mulher
Era um dissabor
Era um desprazer
Que fazia dó

(...)

Dentro da fêmea, 
Deus pôs lagos e grutas, canais
Carnes e curva e cós
Seduções e pecados infernais
Em nome dela, depois
Criou perfumes, cristais
O campo de girassóis
E as noites de paz."
(Chico + Edu Lobo > 1987/1988)

HISTÓRICO: O excesso de trabalho me obrigou a ficar ausente deste espaço por alguns dias. Tinha planejado postar "Tororó" no Dia Internacional da Mulher, mas cadê tempo? Chego com atraso para dizer que acho esse "8 de março" estranho. Não consigo dizer "parabéns" com naturalidade. Penso que o dia é muito mais de luta e reflexão. Enquanto houver mulheres silenciadas, violentadas, desrespeitadas, assediadas, humilhadas, mutiladas no corpo e na alma, não dá para festejar. Ainda assim, não resisti ao louvor que Chico e Edu fizeram para essas companheiras de toda hora.

março 06, 2006

As minhas meninas



para Elayne e Andrea

"As meninas são minhas
Só minhas na minha ilusão
Na canção cristalina
Da mina da imaginação

Pode o tempo
Marcar seus caminhos
Nas faces
Com as linhas
Das noites de não
E a solidão
Maltratar as meninas
As minhas não

As meninas são minhas
Só minhas
As minhas meninas
Do meu coração."

(Chico > 1986)

HISTÓRICO: Conheço uma há quase 20 anos. E desde o primeiro momento sabia que poderia contar com ela para o que desse-e-viesse. Às vezes, s
umimos um do outro por dias, meses, ano até. Mas um encontro inesperado ou um simples telefonema sempre foram suficientes para acender todo o amor, como se nenhum segundo houvesse passado sem que tivéssemos nos falado. A outra, conheço há menos tempo, uns 5 anos talvez. Digo talvez, porque a afinidade entre nós é tanta que me faz confundir as datas, por parecer que a amo desde sempre. Também não nos vemos com a frequência que gostaríamos, mas a distância jamais foi um perigo para nosso sentimento. Encontrá-la é estar pertinho da alegria, do aconchego. O incidente da última quinta-feira me fez entender mais claramente a missão dos amigos. Para cada soluço, as minhas meninas tinham um abraço; para o meu silêncio, as minhas meninas me entregavam paz; para tantos lamentos, as minhas meninas viravam ouvidos e colos; para todo o desamparo, as minhas meninas transformavam-se em porto seguro; para toda a solidão, as minhas meninas me levavam calor. É por essas e muitas outras que elas são as minhas meninas do meu coração.

março 03, 2006

Como um samba de adeus



para Claus

"Quanto tempo
Mina d'água do meu canto
Manso
Piano e voz
Vento
Campo
Dentro
Antro
Onde reside o lamento preto
Da minha voz

Tanto tempo
Como nunca mais, eu penso
Como um samba de adeus
Com que jeito acenar
O meu lenço branco."
(Chico + Caetano Veloso > 1995)

HISTÓRICO: Sem inspiração. O que eu tinha chorado em "Abandono" (post de 7/2), aconteceu ontem. Ele está descansando no jardim da casa de duas grandes amigas. Fiz questão de fazer tudo por ele. Até o fim. Enxada, cavadeira, pá, buraco, chuva, lama, lágrimas, mil lágrimas. Carregá-lo para o seu último leito. Seu corpo leve ganhava um peso enorme, meus braços longos pareciam não alcançar o fundo. Era a despedida indesejada, adiada, sofrida. Como um quebra-cabeça às avessas, os torrões de terra iam lentamente escondendo meu grande companheiro, até revelar a escuridão, o nada, numa sequência distorcida pelos mares dos meus olhos. O adeus é infinito. O amor também.