maio 26, 2006

Nicanor



"Onde andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro
Quando tratava de amor
Há tanta moça na espera
Suas gentis primaveras
Um desperdício de flor

Onde andará Nicanor?
Tinha amor pro porto inteiro
Um peito de remador
Ah, quem me dera as morenas
Pra consolar suas penas
Para abrandar seu calor."
(Chico > 1969)


HISTÓRICO: Estimulado por uma gincana cultural hospedada no site do Chico que visava à divulgação do cd "Carioca", pus-me a pensar sobre o paradeiro do galanteador personagem da canção de hoje. E vocês não fazem idéia das viagens que idealizei a partir dessa proposta. A pergunta era "Onde andará Nicanor?" e - depois de imaginar muitas possibilidades - respondi assim: "Elas eram doces, cheirosas e ardentes... E muito observadoras também. Não demoraram para notar que ele andava com as mãos sujas de terra de outros canteiros. Vingativas, armaram uma para Nicanor. Assim que chegou ao jardim de Margarida, o moço deu de cara também com Rosa, Magnólia, Hortênsia, Yasmim, Violeta, Dália, Camélia e Amarílis. Ataram-no com aqueles nós que ele tão bem conhecia e arrastaram aquele corpo - outrora tão desejado - até o porto. Lançado ao mar, ele sorria. A água distorcia a imagem do cais, misturando e multiplicando todas as flores. Era o jardim mais lindo que cultivara. E nunca pensara que mereceria tantas cores e perfumes na hora do seu último adeus."

maio 23, 2006

Uma palavra



para amigos e amigas

"Palavra prima
Uma palavra só, a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra

(...)

Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra."
(Chico >1989)


HISTÓRICO: Nas suas bocas, as palavras ganham dimensões que não encontro tradução em dicionário algum. Presto atenção em cada sílaba para que os significados não me escapem. Porque eles - quando falam - mexem com muitas emoções e sentimentos, estimulam mil sonhos e outras mil e uma esperanças. Dos lábios deles saem verdades, descobertas pelos (des)caminhos, encontradas sob pedras, reforçadas pela escrita ou lavadas por tantas lágrimas. Seus suspiros também falam de dúvidas, que me inquietam por me instigarem a (re)pensar minhas certezas. Às vezes, eles matam as palavras, esquecendo-se (será?) que aquele silêncio me revela muito. Calo, também... Sei que é preciso recarregar, ganhar forças, para que - num outro dia - as palavras sejam cuspidas como balas de um sorriso metralhador. E assim, atingido por elas, entrego-me à delícia de tantas histórias compartilhadas. Desprendo-me de tudo e - como num filme - relembro infinitas demonstrações de carinho, apoio e cumplicidade. E sussuro uma palavra: obrigado.

maio 17, 2006

Maninha



"Se lembra da fogueira
Se lembra dos balões
Se lembra dos luares dos sertões
A roupa no varal
Feriado nacional
E as estrelas salpicadas nas canções
Se lembra quando toda modinha
Falava de amor
Pois nunca mais cantei, ó maninha
Depois que ele chegou."
(Chico > 1977)

HISTÓRICO: Quando o Chico compôs essa canção, os tempos eram outros: a ditadura militar inibia, silenciava, torturava, matava... Ainda assim, o povo se rebelava, ia para as ruas, perdia a vida, nunca a voz. A guerrilha urbana - provocada pelo PCC nos últimos dias em São Paulo - me fez pensar no silêncio do "brasileiro pós-abertura". Não parece paradoxal? Há quanto tempo sentimos a violência se aproximar? Primeiro, da nossa cidade; depois, do nosso bairro, nossa rua, nossa calçada, nossa casa, nossa janela. E não fazemos nada, a não ser colocar grades, travas, alarmes, sensores, câmeras... Já passou da hora de irmos às ruas pedir respeito, segurança e atitude. Gritar, espernear, xingar, cobrar de quem é pago para garantir a nossa paz. Até quando vamos ficar nos escondendo, apenas esperando? Viver com medo é pequeno demais.

maio 12, 2006

Sempre

"O teu corpo em movimento
Os teus lábios em flagrante
O teu riso, o teu silêncio
Serão meus ainda e sempre

Dura a vida alguns instantes
Porém mais do que bastantes
Quando cada instante é sempre."

(Chico > 2006)

HISTÓRICO: Essa canção do Chico me ganhou no ato, logo na primeira audição do recente "Carioca". Muitos reclamam que com o passar do tempo, a chama do amor vira brasa que vira cinza que o vento espalha até sumir. Mas por que tem de ser assim? Se a longevidade de uma relação tem receita, um dos ingredientes essenciais é o "sempre", o não-esquecer dos pequenos - mas tão importantes - prazeres do dia-a-dia. Não deixar para trás os tantos detalhes que povoaram cada instante da descoberta e da conquista é a melhor maneira de perpetuar todos esses instantes por anos ou décadas, até chegar a hora derradeira do amor. Ou não.

maio 03, 2006

Samba e amor



"Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade, que arde
E apressa o dia de amanhã

De madrugada a gente ainda se ama
E a fábrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama, reclama
Do nosso eterno espreguiçar."
(Chico > 1969)

HISTÓRICO: Esquivar-se da loucura urbana a fim de preservar o amor. Talvez seja isso que falte aos amantes atuais. Reclamamos que os relacionamentos são fugazes demais, mas dedicamos pouco (ou quase nenhum) tempo ao cultivo dos afetos. Encontramos horários para o trabalho, academia, estudos, viagem, filhos, cervejinha, cinema, boate, internet, shopping... Não para o amor. Se estamos sozinhos, agimos como se ele pudesse esperar o momento ideal; se já estamos acompanhados, é o parceiro quem tem de entender toda essa sobrecarga de compromissos. Acontece que o amor é ardiloso: não aparece na hora que queremos e não costuma compreender desprezo e desatenção. E vive muito mais das pequenas atenções e carinhos do que dos grandes arroubos de festas, jantares, noitadas e presentes.