fevereiro 29, 2008

As atrizes


“Com tantos filmes
Na minha mente
É natural que toda atriz
Presentemente
Represente muito pra mim”

(Chico > 2006)

HISTÓRICO: Não é novidade para (quase) ninguém a minha paixão pelo cinema. Muita gente afirma saber de quem é a "culpa". É que quando nasci, meu pai - para melhorar o orçamento da família - fazia um bico como porteiro do Cine Santa Helena, no interior de Goiás. E com a entrada franca, comecei a apreciar a sétima arte ainda bebê, ora no colo da mamãe, ora nos braços do titio... Sempre tinha alguém me levando para aquela sala mágica. Reza a lenda que, numa dessas sessões, entrei em pânico ao ver um personagem "apontando a espingarda para a platéia". Eu tinha menos de 5 anos e o filme era algum do roteirista, ator, produtor e diretor Amácio Mazzaropi.
A verdade é que, desde então, filmes e mais filmes vêm pontuando minha vida. Criança ainda, lembro-me perfeitamente de ter assistido naquele mesmo cinema (com assentos de madeira, música americana antes do início da sessão e 3 sonoras badaladas de sino que indicavam o começo iminente da projeção) a "Branca de Neve e os sete anões", o primeiro longa de animação dos Estúdios Disney e da história.
Já adolescente, vi o musical "Grease - Nos tempos da brilhantina", cujas músicas eu já sabia de cor, de tanto ouvir na vitrola da casa de uma vizinha. Naquela época, a exibição desse filme foi uma exceção, uma vez que a grade de programação do Cine Santa Helena só contemplava produções de artes marciais e pornôs. Alguns anos mais tarde, o final fatídico: o cinema da minha infância foi fechado e virou uma loja de eletroeletrônicos.
Em 1983, aos 16 anos, quando fui morar em Minas Gerais, outros dois filmes entraram para a minha história e - ironicamente - por não terem sido assistidos (o que fiz alguns mais tarde). Tinha combinado com uma amiga de vermos "Amor sem fim", do Franco Zefirelli. Chegamos atrasados e - sei lá como e porquê - entramos numa sessão que já havia começado e mostrava cenas muito quentes. Imaginávamos que aquilo deveria ser o trailer de algum outro filme. A sequência tórrida continuava. Inocentes que éramos, deixamos a sala correndo e chegamos à calçada morrendo de rir. O filme era "Corpos ardentes", do Lawrence Kasdan, com a Kathleen Turner e o William Hurt.
Um ano depois, mudava-me para Goiânia para cursar Medicina. A primeira película a que assisti lá - e da qual ainda gosto sobremaneira - foi "Amadeus", do Milos Forman, no saudoso Cine Capri (que no final dos anos 1990 virou um templo religioso). E a consciência do amor pelo cinema manifestou-se então. Lembro-me de ter voltado para casa, por volta da meia-noite, de ônibus, e completamente nas nuvens.
Em 1991, já fazendo a faculdade de Jornalismo, numa aula de Língua Portuguesa, o tema de análise e discussão foi o maravilhoso "A festa de Babette", do Gabriel Axel, cuja história de perseguição, resignação e transformação passou a ser uma das minhas preferidas de todos os tempos. Até hoje me encanto com esse filme (obrigado, Lia).
Durante o curso , envolvi-me numa iniciativa para movimentar as tardes do Instituto de Ciências Humanas e Letras I (ICHL-I, atual Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia/Facomb), da Universidade Federal de Goiás, que durante as manhãs estava cheio, com a presença dos alunos da área de Comunicação Social, mas que à tarde ficava às moscas.
Criamos, assim, o Projeto Abóbora que, após as 12 badaladas do meio-dia, reunia semanalmente estudantes de toda a universidade em uma das salas vazias do ICHL-I para assistir a um filme e participar, na sequência, de um debate. Os títulos exibidos eram escolhidos pelos palestrantes convidados. Eles eram artistas, médicos, psicólogos, antropólogos, juristas, sociólogos, jornalistas e educadores da sociedade goianiense. As discussões tinham o tema principal de cada produção como fio condutor: as diferenças culturais em "Dersu Uzala", do Akira Kurosawa; os distúrbios psicóticos em "Louca obsessão", do Rob Reiner; o desejo e a apatia em "O anjo exterminador", do Luís Buñuel; e a Aids em "Meu querido companheiro", do Norman René.
Nessa mesma época (ou pouco tempo depois), um outro momento de grandes descobertas foi proporcionado pelo Cine Cultura, uma pequena sala de exibição mantida pelo Governo de Goiás no centro de Goiânia, cuja programação foi responsável por me apresentar, em versão tela grande, a grandes diretores, antes apreciados (ou não) apenas no vídeo. Cito alguns, já que a memória não me permite mais: Pier Paolo Pasolini, com "Saló"; James Ivory, com "Maurice"; Federico Fellini, com "Amarcord"; Woody Allen, com "Simplesmente Alice"; Emir Kusturica, com "Underground - Mentiras de guerra"; François Truffaut, com "Domicílio conjugal"; Luís Buñuel, com "A bela da tarde"; Mohsen Makhmalbaf, com "Gabbeh"; Wim Wenders, com "Asas do desejo"; Peter Greenaway, com "Afogando em números"; Robert Altman, com "Além da terapia"; Stephen Frears, com "O amor não tem sexo"; e Theo Angelopoulos, com "Paisagem na neblina".
Pra finalizar, vou citar um filme a que assisti ao lado de uma pessoa muito importante pra mim e que, consequentemente, é sempre lembrado: "A excêntrica família de Antônia", produção européia vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1996. De lá para cá, muitas mostras e sessões depois, a invenção dos irmãos Lumiere segue emocionando e povoando minha mente (como pode ser conferido no Cine Demais) com idéias e sonhos, embalados por inúmeras canções memoráveis e personificados nos olhares e nas falas de tantos atores e atrizes que - de tão vistos - já são de casa.

10 comentários:

Anônimo disse...

Oi, estava procurando fotos da Vagafogo na net e vi um comentário seu sobre os tomates secos no blog da Fer (chucrute com salsicha) dizendo que comprava tudo lá...e me deu uma saudade...sou sobrinha do Evandro e da Catarina (donos de lá).
Beijos

Ademar de Queiroz (Demas) disse...

Fer,
é verdade. Estou em Sampa há menos de um ano. Enquanto morei em Goiânia, fui muito a Pirenópolis e, consequentemente, ao Santuário Ecológico Vagafogo. Aliás, quem prova aquele brunch volta sempre. Isso para não falar dos tomates secos, dos chutneys, dos cookies, do arvorismo e - claro - da boa prosa com o Evandro. Que bom recebê-la aqui. Volte quando quiser.
Abração

Janaina disse...

Ei! Eu participei demais do Projeto Abóbora, Demas!! Eu era estudante na época. Cara, a gente se conhece??
E o que é isso de todo cinema legal virar templo hein? Destino?
Hehehee.
Beijão!

Ademar de Queiroz (Demas) disse...

Sério, Janaina?!
O Projeto Abóbora foi uma coisa muito bacana no ICHL. Além de levantar discussões sobre os mais variados assuntos (de acordo com o filme visto), ainda conseguimos fazer com que as sessões valessem como atividades extra-curriculares. Lembra que tinha uma lista de frequência?
Com certeza, pelo menos de vista, nos conhecemos, né?
E nem me fale dessa história da "conversão" dos cinemas em templos.
Beijo

Anônimo disse...

Ola querido...
amei seu blog....
Eu morei 10 anos em Goiania...
foi impossivel nao te adicionar...
tenho um carinho enorme por essa cidade....
nem pedi sua permissao...mas vc ja eh um dos meus favoritos no meu blog!
Beijo grande!!!

Ademar de Queiroz (Demas) disse...

Tamara,
que bom receber sua visita. Fique à vontade por aqui. Goiânia é realmente um encanto, né?
Abração

Sweet! disse...

Eu não conheço não com o Nouvelle Cousine. Para linkar no Maio alguma versão de My Funny Valentine dui escolher no Youtube e ouvi várias, mas a que permanece mesmo é esta do filme, que ouço a muito tempo, com o Matt Damon.

Cinema é mesmo td de bom.

Ademar de Queiroz (Demas) disse...

Sweet,
nem me fale: adoro cinema e - como deu para ver nesse breve relato de vida, rs - os filmes vão marcando época para mim.
Sobre a versão do Nouvelle Cousine para "My funny Valentine", também não encontrei nada na internet, mas deixei um link no seu blog para compra da faixa no Sonora.
Abração

Suzi disse...

oi, demas!
quantas histórias lindas e que jeito bom de contá-las! recordações passadas e presentes, emoções vivas.

a seleção do trecho de "as atrizes" ficou perfeita.
essa música é show!

Ademar de Queiroz (Demas) disse...

Suzi,
que bom que você gostou: o texto ficou bem maior do que é de costume por aqui, mas as lembranças foram surgindo e fui me deixando levar.
Abração